Termo "anima": discordância quanto a tradução de manchete jornalística

crcf

New Member
Portuguese
Bom dia.

Voltou a baila o questionamento da correta tradução quanto a reportagens veiculada em idiomas diferente do portal El Pais assinado pela mesma jornalista.

Por favor, pouco importa-me a ideologia, estou checando um fato, logo, não há outra motivação senão a correta interpretação.

Versão em Português da reportagem do El País: "O breve discurso de Bolsonaro decepciona em Davos"
Versão em Espanhol da reportagem do El País: "Bolsonaro anima a los ejecutivos de Davos a invertir en el nuevo Brasil"

O questionamentos ideológico baseia-se no fato de que a estrutura da reportagem é igual em ambos idiomas, inclusive, na grande parte das reportagens, até mesmo os parágrafos possuem a mesma construção e mesmo significado. Ou seja, o corpo da reportagem é o mesmo.

Partindo da premissa de que o leitor em Espanhol e em Português ao término da leitura da reportagem deverá possuir a mesma conclusão (supondo tratar-se de 2 leitores "normais", isto é, que desconheçam absolutamente tudo referente a política brasileira, desprovidos de quaisquer motivação senão a compreensão dos fatos).

A pergunta é: o significado das manchetes é o mesmo?

Segundo o dicionário WordReference e Real Academia Espanhola, o significado de "anima" em espanhol, é igual ao Português, em ambos idiomas, ou seja, "anima" é a forma flexionada do verbo "animar". Para agilizar eventual pesquisa, segue o link para a definição de "anima" em Português do dicionário Priberam e Michaelis.

Quando consultado os sinônimos em Português e Espanhol, observa-se também que o significado é o mesmo, inclusive, há várias situações onde há sinônimos idênticos em ambos idiomas, segue o link para sinonimos.com.br e priberam.

PERGUNTAS

1) Assumindo que o significado do conteúdo das reportagens é o mesmo, inclusive, as frases e os parágrafos em ambos idiomas estão dispostos na mesma ordem, sendo quase que uma tradução exata, logo, é correto afirmar, na ausência da machete, leitores nativos do Português e Espanhol obterão a mesma informação, na mesma ordem e cronologia. Assumindo como verdadeiro o conteúdo da reportagem é igual em ambos idiomas, também é correto afirmar que o significado da manchete possui o mesmo significado para leitores nativos?

2) Assumindo a interpretação isolada de "Bolsonaro anima a los ejecutivos [em Davos]" e "Bolsonaro decepciona em Davos", é correto afirmar que o significado é o mesmo e o entendimento de leitores nativos será igual?

3) É possível afirmar que a a motivação, no caso, a emoção, é o mesmo para leitores nativos das respectivas manchetes, ainda que, a mensagem seja diferente "O breve discurso de Bolsonaro decepciona em Davos" e "Bolsonaro anima a los ejecutivos de Davos a invertir en el nuevo Brasil".

CONCLUSÃO DA PERGUNTA E O PRINCIPAL
Pra que não restem dúvidas, pra que posteriormente eu não seja questionado ao apresentar as respostas aqui recebidas, o que realmente deseja-se comprovar é se a mensagem transmitida é a mesma. Em Português, a manchete carrega uma ideia negativa referente ao Bolsonaro, enquanto que, em Espanhol, A MENSAGEM PARA LEITORES LUSÓFONOS aparenta ser positiva.

A emoção, o significado e a mensagem são igual ou antagônicas em Português e Espanhol?

POR GENTILEZA, ainda que a primeira resposta seja excelente e você julgue não haver necessidade de se fazer quaisquer complemento, deixe também uma resposta sinalizando concordar com o que o fulano XYZ disse. Isso porque, a razão pela qual estou aqui fazendo essas pergunta, citando as fontes antes consultadas, esmiuçando tudo tim-tim por tim-tim e ainda entrando em detalhes, deriva UNICAMENTE das interpretações enviesadas, logo, uma única resposta, por mais esclarecedora que possa ser, ainda assim será insuficiente para me fazer crer que, o único usuário que contribuiu, o fez sem viés político!

Por fim, meu muito obrigado! A realidade é que o lado de lá diz ser perseguido pelo de cá e vice-e-versa.

IMPORTANTE
Por gentileza, ainda que possa ser tentador expressar o teus sentimentos referentes ao Bolsonaro ou então, comentários de que Lula comeu um Boulos perto da Marina ao lado do triplex!
 
  • Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    O significado de 'animar' é o de 'incitar', 'exortar' 'encorajar', acepção que também pode ter em português. As mensagens que os títulos transmitem não são, obviamente, iguais, mas também não são necessariamente antagónicas. Bolsonaro pode ter exortado os participantes a investirem no Brasil e ainda assim ter decepcionado, por serem maiores ou serem outras as expectativas de quem o ouviu ou de quem poderia ter interesse no que ele poderia propor (se bem me recordo, fui isso mesmo que a imprensa europeia também relatou na altura, há dois anos). Também não é de estranhar que tenham sido escolhidos títulos diferentes para diferentes edições do jornal, destinadas a públicos diferentes e com diferente interesse, envolvimento e conhecimento da situação do Brasil. A relevância do assunto não é a mesma para um brasileiro ou para um espanhol, nem mesmo para um português, por muito estreitos que sejam os laços que nos ligam ao Brasil. Títulos diferentes, bem como diferentes paginação e destaque, ou inclusivamente os acréscimos ou cortes que possam ser feitos no texto numa e noutra edição, correspondem a uma opção editorial corrente no mundo jornalístico, comprovável se consultarmos cada uma das edições nacionais ou regionais que os jornais de dimensão internacional publicam. O mais provável, aliás, é a escolha ou a redacção do título não ter partido sequer da autora do texto mas dos responsáveis de cada uma das edições locais, pelo que também nada se pode concluir de ser da mesma pessoa a autoria do artigo. O facto de o texto publicado em cada uma das edições ser igual ou parecido também não impede que os títulos sejam distintos. O mesmo texto pode suportar ambos os títulos, que correspondem a abordagens ou visões diferentes do mesmo assunto. Que o leitor reaja diferentemente em função da forma como cada uma das notícias lhe é apresentada é natural, como também seria natural que houvesse reacções divergentes dos leitores de cada uma das edições ainda que o título fosse igual.
    Não vejo, por isso, nenhuma contradição nos títulos, apenas diferenças editoriais. E, como disse, 'animar' significa apenas exortar, o que, de alguma forma, pressupõe já algum desinteresse ou resistência dos exortados, sendo perfeitamente legítimo também dizer, se eles não foram convencidos, que o orador decepcionou.
     

    zema

    Senior Member
    Español Argentina
    O título em espanhol fala do que ele fez ou tentou fazer: encorajar os executivos para que invistam no novo Brasil.

    Qualquer consideração sobre o efeito que teve, se ele decepcionou ou não, em todo o caso tem a ver com os comentários dos empresários já no final da reportagem, não com o título em espanhol.

    P.S. Escribí esto antes de leer el post de Carfer, pero me demoré a la hora de enviarlo. Lo hago ahora, porque no me parece que haya contradicción.
    En cuanto a los motivos editoriales para poner un título u otro... bueno, eso sí supongo que será materia opinable.
     

    Ari RT

    Senior Member
    Português - Brasil
    Cheguei na Inglaterra faz quase 30 anos para minha primeira pós. Fazia parte do "pacote" uma passagem pelo departamento de linguística, cujo diretor resolveu que faria sentido nos ensinar a "ler jornal". Ora, ler eu sabia... ou não estaria ali. Mas é certo que havia características de cada veículo que deveriam ser tomadas em conta ao ler. Havia os pró-monarquia e os anti, os mais sensacionalistas e os menos, tinham até nomes diferentes e formatos de papel característicos. Fazia sentido, sim, aprender a ler jornal. O mesmo fato, no veículo A e no B apareceriam de FORMAS distintas, e era preciso decodificar a forma em seu contexto para chegar ao fato.
    No caso em comento, eu não li a reportagem, não analisei o mérito. Não posso dizer se o conteúdo embasa uma visão otimista ou pessimista do desempenho do presidente, o que tampouco vem ao caso. O que depreendo é que um redator-chefe é mais crítico que o outro em relação ao mesmo, e isso é perfeitamente normal. Ou bem que...
    Tecnicamente falando, a manchete, o "lead" e o tópico frasal servem para chamar a atenção, não para carregar dados. O último, se bem utilizado, orienta o leitor na interpretação do que vai ler em seguida e lhe permite escolher entre ler o parágrafo ou saltar. Os outros dois são (deveriam ser) iscas. Não podemos descartar a opção de que o público-alvo da edição X seja mais atraído para a leitura se a manchete falar bem/mal do presidente. Pode ser que o público-alvo da edição espanhola seja diferente daquele da edição brasileira. Podemos inserir ali uma manipulaçãozinha do humor coletivo? Podemos. É correto fazer? Cada qual com seu mérito e sua culpa. Devo, posso, influenciar as pessoas que me leem na direção das minhas convicções políticas? Creio que sim, se forem honestas.
    Não existe imprensa completamente isenta, não são robôs os que redigem as manchetes, são humanos. Eu não sou isento, eu posto neste forum por força de alguma motivação, nobre ou vil, cá me cabem o mérito ou a culpa. Pragmaticamente, fazemos o que fazemos por alguma razão. Ou faríamos nada. Cabe ao leitor conhecer o veículo de imprensa e atribuir a ele a credibilidade justa, quando se atém aos fatos, e a avaliação "calibrada" do conteúdo emocional embutido. Revoltar-se porque boa parte da população não tem as ferramentas para detectar níveis sutis de manipulação não adianta nada. Os que dominam essas ferramentas usem-nas para extrair do texto o suco.
    De resto, chora menos quem pode mais. Sempre podemos fundar um jornal ou iniciar um blog. Pomos-lhe um nome bem chamativo (para o público-alvo de interesse, bem entendido) e fazemos nossa propaganda. Leia quem quiser, ou quem vier a ser capturado pela isca.
     

    gato radioso

    Senior Member
    spanish-spain
    Não admira que haja mensagens diferentes ou contraditórios. De El Pais pode-se esperar qualquer coisa. Não acho que haja aqui questões lingüísticas a debater realmente, mas as deliberadas peculiaridades dum jornal que, embora o prestigio que teve há trinta anos, costuma cair nestas confusões.
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Há duas décadas que deixei de ser o leitor assíduo do "El País" que no passado fui (da edição em castelhano, impressa), mas tenho-o continuado a seguir, involuntariamente, através das edições online das quais, directamente ou por via das redes sociais, me continuam a chegar alguns artigos (maioritariamente do "El País - México", vá lá perceber-se porquê). Penso, sem de forma alguma o querer defender, que é bom arredar dois equívocos que têm vindo a pairar quando aqui nos referimos ao "El País". O grupo empresarial é um só (a PRISA), mas há diferenças substanciais no que cada uma das seis edições regionais publica sob esse título (as duas espanholas, em castelhano e catalão, a inglesa, a americana, a brasileira e a mexicana). De certo modo, podemos dizer que são seis jornais diferentes, com o mesmo título e o mesmo proprietário, que recorrem a um fundo comum de artigos, mas que também publicam coisas bastantes diferentes consoante o público a que localmente se destinam e os interesses que a sociedade proprietária entende prosseguir em cada país. É, pois, natural, que não haja inteira coincidência, quando não mesmo oposição, entre o que publicam umas e outras edições. A situação está longe de ser invulgar na imprensa mundial, é isso que fazem todos os grandes títulos transnacionais ou até mesmo imprensa nacional de âmbito local, veja-se o caso da imprensa consorciada (os 'syndicate') dos Estados Unidos. Consequentemente, o facto de o jornal publicar um artigo na edição espanhola não quer dizer que vá ser publicado ipsis verbis na edição brasileira ou sequer que aí chegue a ser publicado e vice-versa. Naturalmente que estas diferenças de orientação editorial não existiriam ou não seriam permitidas se não servissem os interesses dos proprietários, mas não há propriamente duplicidade, no sentido de que as diferentes edições dizem consciente e propositadamente uma coisa num lado e outra noutro. Não são uma só pessoa, não têm uma só voz. São, no fundo, jornais diferentes, com as correlativas diferenças de orientação e de opinião.
    O segundo equívoco é que o título espanhol não é uma tradução do original brasileiro. Não há nele, portanto, nenhuma infidelidade, nem sequer incongruência entre o título e o teor da parte publicada em espanhol, porque esta foi amputada de boa parte das apreciações dos participantes do encontro de Davos que não apreciaram a intervenção de Bolsonaro. Sendo assim, não haveria muita razão para o título espanhol falar de decepção, conclusão que, pelo teor do artigo aligeirado, o leitor espanhol teria dificuldade em entender.
     
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